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sábado, 25 de janeiro de 2014
sábado, 4 de maio de 2013
Olhe Esse Vento nas Costas, Menino
Olhe Esse
Vento nas Costas, Menino
Dráuzio
Varella
Cuidado com a friagem, meu filho! Minha avó falava assim. A sua,
provavelmente, também. Acho que todas as avós do mundo tiveram essa preocupação
com os netos. Acostumados a considerar sábios os conselhos que chegaram até nós
pela tradição familiar, também insistimos com nossos descendentes para que se
protejam da friagem e dos golpes de vento, sem nos darmos conta de que fica
estranho repetirmos tal recomendação ingênua em pleno século 21.
Se friagem fizesse mal, a seleção natural certamente nos teria privado
da companhia de suecos, noruegueses, canadenses, esquimós e de outros povos que
enfrentam a tristeza diária de viver em lugares gelados.
A crendice de que o frio e o vento provocam doenças do aparelho
respiratório talvez seja fácil de explicar. Sem ideia de que existiam vírus,
fungos ou bactérias, nossos antepassados achavam lógico atribuir as gripes e
resfriados, que incidiam com maior frequência no inverno, à exposição do corpo
às temperaturas mais baixas.
É possível que a conclusão tenha sido reforçada pela observação de que
algumas pessoas espirram e têm coriza quando expostas repentinamente às baixas
temperaturas, sintomas de hipersensibilidade (alergia) ao frio, que nossos
bisavós deviam confundir com os do resfriado comum.
Confiantes na perspicácia de suas observações, as gerações que nos
precederam transmitiram a crença de que friagem e golpes de ar provocam doenças
respiratórias, restringindo a liberdade e infernizando a vida de crianças,
adolescentes e até dos adultos:
– Não beba gelado, filhinho! Não apanhe sereno! Não saia nesse frio,
minha querida, vai pegar um resfriado! Agasalhe essa criança; ela pode ficar
gripada. Feche a janela, olhe esse vento nas costas! Descalço no chão frio? Vá
já calçar o chinelo!
Crescemos obedientes a essas ordens. Quanto calor devemos ter sofrido
no colo de nossas mães enrolados em xales de lã em pleno verão? Quantos
guaranás mornos fomos obrigados a tomar nos aniversários infantis? Para sair
nas noites frias, quantas camadas de roupa tivemos de suportar? Quantas vezes
interromperam nossas brincadeiras porque começava a cair sereno?
A partir dos anos 1950, foram realizadas diversas pesquisas para
avaliar a influência da temperatura na incidência de gripes, resfriados e
outras infecções das vias aéreas.
Nesses estudos, geralmente realizados nos meses de inverno rigoroso, os
voluntários foram divididos em dois grupos: no primeiro, os participantes
passavam o tempo resguardados em ambientes com calefação, sem se exporem à neve
ou à chuva. No segundo grupo, os participantes eram expostos à chuva, à neve e
aos ventos cortantes.
Nenhum desses trabalhos jamais demonstrou que a exposição às
intempéries aumentasse a incidência de infecções respiratórias. Ao contrário,
diversos pesquisadores encontraram maior frequmicróência de gripes e resfriados
entre os que eram mantidos em ambientes fechados.
Numa cidadezinha do interior da Holanda, na segunda metade do século
XVII, um dono de armarinho chamado Antoni Leeuwenhoek, que tinha como distração
estudar lentes de aumento, montou um aparelho que aumentava o tamanho dos
objetos. Por uma curiosidade particular, dessas que costumam mudar os rumos da
ciência, Leeuwenhoek, em vez de usar seu microscópio rudimentar para ampliar
coisas pequenas, como patas de mosquitos, olhos de mosca ou buracos de cortiça,
conforme faziam os ingleses naquela época, procurou as invisíveis. Examinou uma
gota de chuva, a própria saliva, uma gota de seu esperma e ficou estarrecido
com o que seus olhos viram.
Relatou assim suas descobertas: “No ano de 1675, em meados de setembro
(…) descobri pequenas criaturas na água da chuva que permaneceu apenas alguns
dias numa tina nova pintada de azul por dentro (…) esses pequenos animais, a
meu ver, eram 10 mil vezes menores do que a pulga-d’água, que se pode ver a
olho nu”.
Mais de 300 anos depois da descoberta dos micróbios, ainda continuamos
a atribuir à pobre friagem a causa de nossas desventuras respiratórias.
Convenhamos, não fica bem! Esquecemos que resfriados e gripes são doenças
causadas por vírus e que sem eles é impossível adquiri-las. Aceitamos
passivamente que o sereno faz mal quando cai em nossas cabeças e que o vento em
nossas costas nos deixa doentes, sem pensarmos um minuto na lógica de tais
afirmações. Qual o problema se algumas gotas de sereno se condensarem em nosso
cabelo? E o vento? Por que só quando bate nas costas faz mal? Na frente não?
Gripes, resfriados e outras infecções respiratórias são doenças
infecciosas provocadas por agentes microbianos que têm predileção pelo epitélio
do aparelho respiratório. Quando eles se multiplicam em nossas mucosas, o nariz
escorre, tossimos, temos falta de ar e chiado no peito. A presença do agente
etiológico é essencial; sem ele podemos sair ao relento na noite mais fria,
chupar gelo o dia inteiro ou apanhar um ciclone nas costas sem camisa, que não
acontecerá nada, além de sentirmos frio.
A maior incidência de infecções respiratórias nos meses de inverno é
explicada simplesmente pela tendência à aglomeração em lugares com janelas e
portas fechadas para proteger do frio. Nesses ambientes mal ventilados, a
proximidade das pessoas facilita a transmissão de vírus e bactérias de uma para
outra.
A influência do ar condicionado na incidência de doenças respiratórias,
entretanto, não segue a lógica anterior. A exposição a ele realmente favorece o
aparecimento de infecções respiratórias agudas, mas não pelo fato de baixar a
temperatura do ambiente (o ar quente exerce o mesmo efeito deletério), e sim
porque o ar condicionado desidrata o ar e resseca o muco protetor que reveste
as mucosas das vias aéreas. O ressecamento da superfície do epitélio
respiratório destrói anticorpos e enzimas que atacam germes invasores,
predispondo-nos às infecções.
domingo, 30 de dezembro de 2012
Ano Novo...
Senhor, dê-me serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar,
a coragem para mudar as coisas que não posso aceitar e a sabedoria para esconder os corpos daquelas pessoas que eu tive que matar por estarem me enchendo o saco.
Também, me ajude a ser cuidadoso com os calos em que piso hoje, pois
eles podem estar conectados aos sacos que terei que puxar amanhã.
Ajude-me, sempre, a dar 100% no meu trabalho...
- 12% na segunda-feira,
- 23% na terça-feira,
- 40% na quarta-feira,
- 20% na quinta-feira,
- 5% na sexta-feira.
E... Ajude-me sempre a lembrar,
quando estiver tendo um dia realmente ruim e todos parecerem estar me enchendo o saco, que são necessários 42 músculos para socar alguém e apenas 4 para estender meu dedo médio e mandá-lo para aquele lugar...
Que assim seja!!!
Viva todos os dias de sua vida como se fosse o último.
Um dia, você acerta.
a coragem para mudar as coisas que não posso aceitar e a sabedoria para esconder os corpos daquelas pessoas que eu tive que matar por estarem me enchendo o saco.
Também, me ajude a ser cuidadoso com os calos em que piso hoje, pois
eles podem estar conectados aos sacos que terei que puxar amanhã.
Ajude-me, sempre, a dar 100% no meu trabalho...
- 12% na segunda-feira,
- 23% na terça-feira,
- 40% na quarta-feira,
- 20% na quinta-feira,
- 5% na sexta-feira.
E... Ajude-me sempre a lembrar,
quando estiver tendo um dia realmente ruim e todos parecerem estar me enchendo o saco, que são necessários 42 músculos para socar alguém e apenas 4 para estender meu dedo médio e mandá-lo para aquele lugar...
Que assim seja!!!
Viva todos os dias de sua vida como se fosse o último.
Um dia, você acerta.
Luís Fernando Veríssimo
sábado, 3 de novembro de 2012
quarta-feira, 3 de outubro de 2012
Quero...
QUERO
"Quero que todos os dias do ano todos os dias da vida de meia em meia hora de 5 em 5 minutos me digas: Eu te amo.
Ouvindo-te dizer: Eu te amo,creio, no momento, que sou amado.No momento anterior e no seguinte,como sabê-lo?
Quero que me repitas até a exaustão que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação pois ao não dizer: Eu te amo,desmentes apagas teu amor por mim.
Exijo de ti o perene comunicado.Não exijo senão isto,isto sempre, isto cada vez mais.
Quero ser amado por e em tua palavra nem sei de outra maneira a não ser esta de reconhecer o dom amoroso,a perfeita maneira de saber-se amado:amor na raiz da palavra e na sua emissão,amor saltando da língua nacional,amor feito som vibração espacial.
No momento em que não me dizes:Eu te amo,inexoravelmente sei que deixaste de amar-me,que nunca me amastes antes.
Se não me disseres urgente repetido Eu te amoamoamoamoamo,verdade fulminante que acabas de desentranhar,eu me precipito no caos,essa coleção de objetos de não-amor."
"Quero que todos os dias do ano todos os dias da vida de meia em meia hora de 5 em 5 minutos me digas: Eu te amo.
Ouvindo-te dizer: Eu te amo,creio, no momento, que sou amado.No momento anterior e no seguinte,como sabê-lo?
Quero que me repitas até a exaustão que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação pois ao não dizer: Eu te amo,desmentes apagas teu amor por mim.
Exijo de ti o perene comunicado.Não exijo senão isto,isto sempre, isto cada vez mais.
Quero ser amado por e em tua palavra nem sei de outra maneira a não ser esta de reconhecer o dom amoroso,a perfeita maneira de saber-se amado:amor na raiz da palavra e na sua emissão,amor saltando da língua nacional,amor feito som vibração espacial.
No momento em que não me dizes:Eu te amo,inexoravelmente sei que deixaste de amar-me,que nunca me amastes antes.
Se não me disseres urgente repetido Eu te amoamoamoamoamo,verdade fulminante que acabas de desentranhar,eu me precipito no caos,essa coleção de objetos de não-amor."
Carlos Drummond de Andrade
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
VERBO SER
VERBO SER
Que vai ser quando crescer?
Vivem perguntando em redor. Que é ser?
É ter um corpo, um jeito, um nome?
Tenho os três. E sou?
Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome, corpo e jeito?
Ou a gente só principia a ser quando cresce?
É terrível, ser? Dói? É bom? É triste?
Ser; pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas?
Repito: Ser, Ser, Ser.
Que vou ser quando crescer?
Sou obrigado a? Posso escolher?
Não dá para entender. Não vou ser.
Vou crescer assim mesmo.
Sem ser Esquecer.
Carlos Drummond de Andrade
domingo, 16 de setembro de 2012
Morreu a velhinha
Morreu a velhinha
![]() |
| "The lacemaker”, de Johannes Vermeer.Daqui. |
Morreu 3 dias depois de chegar aos 100 anos.
Parece que estava só esperando o centenário.
Da vida não teve muitos segredos:
Nasceu, cresceu, casou, teve filhos,
Nasceu, cresceu, casou, teve filhos,
Aprendeu a ler e escrever o básico.
Ela nunca ouviu falar de Alberto Caieiro,
Mas concordaria com o heterônimo:
“Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
“Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples
Tem só duas datas – a da minha nascença e a da minha morte.”
Ela não saía muito de casa:
Cresceu no mato, casou no mato,
Ela não saía muito de casa:
Cresceu no mato, casou no mato,
Só depois virou urbana.
Na cidade, então pequena,
Era de casa para a venda;
Da venda para casa;
E aos domingos, missa.
E aos domingos, missa.
Não viu muita coisa do mundo.
Não viu Getúlio Vargas,
Não viu a segunda guerra,
Já ouviu falar de Hitler,
Não conheceu Stálin, Mussolini,
Mas da bomba atômica ouviu falar
E acreditou em Deus Pai para a todos salvar.
Já ouviu falar de Hitler,
Não conheceu Stálin, Mussolini,
Mas da bomba atômica ouviu falar
E acreditou em Deus Pai para a todos salvar.
Não viu os hippies e nem o Vietnã;
Nunca soube quem eram os beats e os Beatles,
Rolling Stones e Jovem Guarda,
Mas gostava de algumas canções do Roberto Carlos;
Rolling Stones e Jovem Guarda,
Mas gostava de algumas canções do Roberto Carlos;
Ouviu falar que o homem pisou na lua,
Mas nunca soube de Kennedy e Luther King.
Passou pela ditadura que nem se deu conta;
Viu que Tancredo Neves morreu,
E depois disso não sabe o que aconteceu;
Viu que um presidente jovem saiu,
E depois disso não sabe o que aconteceu,
Embora neste período tenha ficado mais pobre.
Embora neste período tenha ficado mais pobre.
Ouviu falar que o mundo acabaria no ano 2000
E não viu o fim do mundo;
Viu uns edifícios arderem em chamas nos EUA,
Mas nunca soube direito o que aconteceu;
E nos últimos tempos assistia TV
Sem nada entender.
Mas ela viu muitas outras coisas.
Mas ela viu muitas outras coisas.
Viu os filhos crescerem,
Os netos aparecerem,
A família prosperar.
Viu as plantas do jardim,
Ouviu o canto dos pássaros,
Agradeceu pela chuva,
Plantou na terra fértil,
Colheu o fruto de seu trabalho
E como viu que era bom, continuou.
E como viu que era bom, continuou.
Viu nascimentos e mortes,
Viu lamentos e felicidades,
Viu os animais de estimação,
Grandes alegrias.
Viu exames de saúde perfeita,
Poucas vezes no hospital esteve;
Viu milagres e falsidades,
Viu, sorriu, chorou, cozinhou, amou.
Sim, viu amores, sentiu amores.
E quase sem sair de casa,
Viu muita coisa a velhinha centenária.
E eu vi,
Ainda tão jovem
E eu vi,
Ainda tão jovem
E sem precisar sair de casa:
A praça da Paz Celestial
A igreja da Candelária
De massacres e chacinas nada divinos;
O fim da União Soviética,
A igreja da Candelária
De massacres e chacinas nada divinos;
O fim da União Soviética,
A queda do muro de Berlim,
A derrocada do comunismo,
A explosão do consumismo.
A derrocada do comunismo,
A explosão do consumismo.
A queda do mauricinho Fernando Collor;
A ascensão do intelectual Fernando Henrique;
A ascensão do operário Luís Inácio Lula;
Os holofotes na estagiária de Bill Clinton,
A liberdade de Nelson Mandela,
A morte de um Papa,
A escolha de um novo Papa,
A decodificação do genoma humano.
Os holofotes na estagiária de Bill Clinton,
A liberdade de Nelson Mandela,
A morte de um Papa,
A escolha de um novo Papa,
A decodificação do genoma humano.
A seleção brasileira vencer Copas do Mundo;
O mapa-múndi diferente;
Golfo, Kosovo, Bósnia-Herzegovina, Chechênia,
O mapa-múndi diferente;
Golfo, Kosovo, Bósnia-Herzegovina, Chechênia,
Saddam Hussein, Milosevic,George Bush, Bin Laden,
E o ataque às Torres Gêmeas.
E o ataque às Torres Gêmeas.
A revolução da internet;
Tsunamis e terremotos devastadores;
Tsunamis e terremotos devastadores;
Um negro no poder nos EUA;
A primeira mulher presidente do Brasil;
Um robô em Marte.
E sei que ainda vou ver muita coisa.
Muita coisa boa.
Muita coisa ruim.
Mas vi muito pouco.
Tomara que eu veja tanto
E
Muita coisa boa.
Muita coisa ruim.
Mas vi muito pouco.
Tomara que eu veja tanto
Quanto a simpática velhinha centenária
Viu durante sua vida.
E que possa partir igualmente de forma serena,
E que possa partir igualmente de forma serena,
Com a tranquilidade de saber ter visto
O que era mais importante.
“O essencial é saber ver”.*
*“O guardador de rebanhos”, de Alberto Caieiro
*“O guardador de rebanhos”, de Alberto Caieiro
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